O Adolescente e sua caixa de pecinhas

Atualizado: 7 de Nov de 2020

Imaginar que quando nascemos somos como uma caixa dividida ao meio, de um lado uma infinidade de pecinhas misturadas, de todos os tamanhos, formatos, cores, cheiros, sabores..., e do outro, um compartimento ainda vazio à espera de ferramentas para iniciar a montagem, é compreender que o processo de tornar-se humano passa por fases, tem um tempo próprio e vai exigir que os “grandes” cuidem e amem os “pequenos”, para que eles se tornem grandes e possam construir a peça mais rara, única e singular, a própria existência.


Você tem filho adolescente? trago algumas questões que podem te ajudar.


Quando criança, a dependência do outro é integral. O cérebro e suas conexões preparam a criança para os primeiros aprendizados, como andar, falar, expressar-se e começar a inserir-se no mundo, e no processo de construção do eu, através dos pais, professores e do convívio social, algumas ferramentas são adicionadas na caixa.


Ao chegar à adolescência outras dinâmicas aparecem. Além de toda a carga hormonal, o cérebro também passa por um processo delicado, novas conexões surgem, outras agora desnecessárias se desmontam gerando uma reorganização definitiva para a vida adulta.


E é justamente aí que se encontra o adolescente!


O turbilhão é grande, os primeiros sinais aparecem no físico, onde o corpo é reconfigurado e junto com essas mudanças, aflora a sexualidade.


As primeiras mudanças físicas já são suficientes para que o adolescente se depare com situações que podem gerar angústia, disparando um fluxo mental de questionamentos e dúvidas diante daquilo que se apresenta e de como será para frente.


A nova configuração física e os questionamentos existenciais que se acentuam acabam por intensificar o processo emocional e caracterizar aquilo que como adultos costumamos chamar de “aborrescentes”, preguiçosos, teimosos, desafiadores e tantos outros adjetivos injustos.


O adolescente costuma viajar com frequência para outros mundos, entre eles o mundo da lua, e geralmente quando é tirados de lá, regressa como se entrasse em um ringue.


Entender e acompanhar as mudanças físicas, mentais e emocionais do adolescente, permite acolher o momento desafiador e encantador que todo ser humano vive ao passar pela adolescência.


Agora ele acredita que já tem todas as ferramentas e quer a todo custo começar a montar suas pecinhas do jeito próprio e reage a qualquer invasão em sua caixa.


A busca pela individuação é saudável e necessária, no entanto, ainda faltam ferramentas essenciais, entre elas o bom senso e o discernimento que só chegará mais tarde. Lembrando que todo o adolescente que se preze, acredita já ser dono delas.


A grande dificuldade no relacionamento entre pais e adolescentes, é o não entendimento por parte dos pais, que os movimentos de independência e busca por “marcar o território” são naturais, e não apenas falta de educação, afronta ou desrespeito.


Assim pensa um adolescente: “Quero experimentar tudo, viver tudo, saber de tudo, só que sempre tem um adulto dizendo o que não posso fazer e impedindo as coisas que me dão prazer”.


E pensar assim, para um adolescente, É PERFEITAMENTE NORMAL.


No papel de pais, o direcionamento, os limites e as cobranças são fundamentais na orientação para o ser humano maduro, no entanto é ai que estão os maiores embates. Pais que não entendem o momento que seus filhos estão vivendo e filhos que começam a tomar conta da montagem das próprias pecinhas.


O despreparo, o autoritarismo e a falta de acolhimento dos pais levam muitos adolescentes a entrarem em momentos existenciais depressivos, e em casos mais graves, buscarem o suicídio.


Considerar que o adolescente é todo igual, problemático e que logo a fase passa, é correr o risco de encaminhá-lo para outras formas de aliviar suas tensões e apaziguar suas angústias, como as drogas, o pertencimento a grupos de risco, enfim, é deixar que o filho busque no mundo, a atenção, o entendimento e o amor que nas entrelinhas está implorando aos seus.


O adolescente não quer romper com seus pais, ele quer começar a mostrar-se com as próprias formas e cores, e principalmente, quer ser amado na sua singularidade, um pouco mais de longe e com algum tempo e espaço só seu.


Outro fator que torna a relação pais e adolescentes mais tensa é a cultura atual que considera como métrica principal o “vencer”, ou seja, quanto mais oportunidade de aprendizado e informação, mais habilitado o filho estará para enfrentar o mundo.


Temos hoje adolescentes sobrecarregados, com excesso de cobranças e pouco tempo para lidar com as questões próprias da idade. Muitos pais se equivocam pensando que quanto mais oportunidades oferecerem, melhor preparam seus filhos para o mundo, e fazem isso por amor, infelizmente uma forma de amor que adoece pelo excesso.


Ser adolescente não é fácil! Ser pai de adolescente não é Fácil!


No processo de evolução do Ser, toda dificuldade pode ser olhada como oportunidade de ampliar nossa visão de mundo e praticar o amor que coloca limites saudáveis e que permite que cada um se construa e se configure conforme as possibilidades da sua caixa de pecinhas.

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