Justiça Restaurativa e Direito Sistêmico: Caminhos para a Construção da Paz

Atualizado: 7 de Nov de 2020

Everaldo Luiz Oldoni

Fabiano Oldoni


“Paz interior é aquele ponto sossegado que buscamos,

bem no centro do redemoinho, no caldeirão que é a vida”.

Kathy Jone


1. A CONSTRUÇÃO DA PAZ COMEÇA EM CADA UM DE NÓS


Nos últimos 100 anos, passamos de 2,5 para mais de 7 bilhões de habitantes no planeta. A projeção para 2030 é de quase 9 bilhões; em 2100 mais de 11 bilhões. Tudo bem que possivelmente não estejamos por aqui em 2100, mas muitos daqueles que amamos e que nos preocupamos em deixar recursos para bem viver, estarão.


Como será reunir tantas pessoas num mesmo lugar onde hoje já está apertado e cerceado? A natureza conseguirá suprir todas as demandas que virão? O planeta certamente comporta todas essas pessoas, mas com que qualidade suas vidas se desenvolverão?

Iradj Roberto Egharari faz uma analogia interessante:


...poderíamos dizer que o mundo se assemelha ao ser humano que está doente e combalido, cujos sentidos estão perdendo as suas capacidades. Os seus olhos não mais vêem, seus ouvidos estão ensurdecidos e suas forças cada vez mais enfraquecidas. Há a necessidade de um médico competente, que possa atender a esse corpo agora desfalecido, dados os conflitos, as desigualdades, as injustiças, as exclusões que partem de todos os lados e que incidem sobre o corpo da humanidade. Esse médico deve ter o dedo no pulso dessa humanidade desolada e aplicar o remédio que seja apropriado e necessário à época em que vivemos. Numa época em que o racismo, o nacionalismo, os extremos de riqueza e pobreza, as desigualdades de gênero e a falta de uma educação universal tornam-se ainda mais intensificadas pela contenda entre as religiões, elementos que dilaceram o corpo da humanidade, um novo remédio deve ser aplicado. Da mesma forma que no corpo humano, quando uma doença acomete uma parte do todo o corpo se mobiliza para a proteção de todo o sistema, essas doenças que acometem o corpo da humanidade necessitam de uma solução abrangente: essa solução, esse remédio, esse elixir poderoso, nada mais é que a unidade da humanidade. [1]


Produzir esse “remédio” é tomar novas consciências que produzam comportamentos menos competitivos, cumulativos, que se voltem para a frugalidade, a simplicidade voluntária, o conforto essencial, e que tenham muito claro que somos um todo, resultado da relação das partes, e que nossa parte precisa ser pensada e feita na coexistência com equilíbrio.


Nossa espécie cria, através da evolução científica e tecnológica, instrumentos capazes de transformar o planeta, porém, ao mesmo tempo, acaba por se transformar numa espécie com potencial de provocar o próprio aniquilamento. Há milhares de anos os dinossauros foram extintos por fatores externos. Hoje, somos nossa própria ameaça.


Muitas espécies extintas, cada vez se consome mais, muitos recursos estão sendo exauridos e diante da escassez dos recursos naturais, os conflitos entre governos, povos e nações não demora a aumentar, na disputa violenta pela sobrevivência, gerando, inevitavelmente, maior sofrimento humano.


Antes se brigava por territórios, minerais e produtos com alto valor comercial. Hoje as disputas são por produtos e recursos da biodiversidade. Verifica-se na história humana polos extremados de criação, inspiração e, ao mesmo tempo, estupidez e barbárie.